19/10/2002 SERÁ QUE A BÍBLIA DIZ A VERDADE? Jeffery L. Sheler Revista Seleções
Durante
aquele verão escaldante, a equipe arqueológica estivera trabalhando na
escavação das ruínas da antiga cidade israelita de Dan, na alta Galiléia.
Com cuidado, Gila Cook, o topógrafo do grupo, desenhava a planta das
muralhas e da praça calçada de pedras, diante do que fora a entrada
principal da cidade.
Nesse momento, quando os raios do sol
vespertino batiam oblíquos sobre uma das muralhas de pedra
recém-escavadas, Cook notou algo estranho. Na ponta exposta de uma das
pedras de basalto, viam-se letras gravadas. Cook chamou logo o chefe da
equipe, Avraham Biran, do Hebrew Union College de Jerusalém. Quando o
arqueólogo veterano se ajoelhou para examinar a pedra, seus olhos se
arregalaram. "Meu Deus!", exclamou. "Uma
inscrição!"
A pedra foi identificada como parte de um
monumento, ou estrela, datada do século 9º a.C.
Aparentemente, comemorava a vitória do rei de Damasco sobre dois inimigos:
o rei de Israel e a Casa de Davi.
A referência
histórica a Davi caiu como uma bomba. O nome tão conhecido do antigo rei
guerreiro de Israel, figura central do Velho Testamento e antepassado de
Jesus segundo o Novo, nunca fora encontrado em nenhum documento antigo
além da Bíblia. Ele era considerado um
personagem lendário pelos mais céticos. Agora, por fim, ali estava
uma inscrição feita não por um escriba hebreu, mas por um inimigo dos
israelitas, pouco mais de um século após a suposta época em que Davi
vivera. Essa descoberta, feita em 1993,
parecia corroborar a existência da dinastia do rei e, por extensão, a dele
próprio.
A descoberta de uma inscrição ou de um artefato pode
comprovar, ou desmentir, determinada passagem das escrituras. Ainda que de formas extraordinárias, a arqueologia moderna
vem confirmando o núcleo histórico do Velho e do Novo Testamento,
sustentando partes centrais de histórias bíblicas
importantes.
A ERA DOS PATRIARCAS
O
livro do Gênesis traça a linhagem de Israel até Abraão, o nômade
monoteísta que, conforme Deus prometeu, seria "o pai de uma multidão de
povos" cujos filhos herdariam a Terra de Canaã. A promessa divina e a
identidade étnica de Israel foram transmitidas de geração a geração - de
Abraão a Isaac e a Jacó. Tangidos pela fome, Jacó e seus filhos -
progenitores das 12 antigas tribos de Israel - foram forçados a abandonar
Canaã e a migrar para o Egito.
Kenneth A Kitchen, egiptólogo e
orientalista agora aposentado pela Universidade de Liverpool, na
Inglaterra, sustenta que a arqueologia e a Bíblia "se harmonizam" quando
descrevem o contexto histórico das narrativas dos patriarcas. Na passagem
do Gênesis 37:28, por exemplo, José um dos filhos de Jacó, é vendido como
escravo por 20 moedas de prata. Kitchen assinala que esse era o exato
preço de escravo naquela região, no período compreendido entre os séculos
19 e 17 a.C., como ficou comprovado por documentos recuperados na região
que é hoje a Síria e o Iraque.
Outros documentos revelam que o
preço de escravos subiu de forma contínua nos séculos seguintes. Se a
história de José foi inventada por um escriba judeu do século 6º, como
sugerido por alguns céticos, por que o valor citado não corresponde ao
preço da época? "É mais razoável supor que a informação da Bíblia reflita
a realidade", diz Kitchen.
FUGA DO EGITO
Já
foi dito que a dramática história do Êxodo - de como Deus libertou Moisés
e o povo judeu do cativeiro no Egito e os guiou à Terra Prometida de Canaã
- é a "proclamação central da Bíblia hebraica". Mas os arqueólogos não
descobriram, fora da Bíblia, qualquer prova concreta que dê sustentação a
essa história, nem à própria existência de Moisés.
Mas Nahum Sarna,
professor de estudos bíblicos da Universidade de Brandeis, afirma que o
relato do Êxodo - que liga a origem de uma nação à escravatura e à
opressão - "não pode, de modo algum, ser uma peça de ficção. Nenhuma nação inventaria para si mesma uma tradição assim
tão inglória", a menos que houvesse um núcleo verídico. William G. Dever,
arqueólogo da Universidade do Arizona, observa: "Escravos, servos e
nômades costumam deixar poucos traços nos registros
arqueológicos."
A data a ser atribuída ao Êxodo é outra
fonte de controvérsia. Em 1 Reis 6:1, encontramos o que parece um marco
histórico claro para o fim da estada israelita no Egisto: "E sucedeu que
no ano de quatrocentos e oitenta, depois de saírem os filhos de Israel do
Egito, no ano quarto do reinado de Salomão sobre Israel (...) começou a
edificar-se a casa do Senhor." Mas a data não coincide com de outros
textos bíblicos nem com o que se sabe da história egípcia.
Sarna e
alguns estudiosos alegam que o período citado - 480 anos - não deve ser
tomado ao pé da letra. "São 12 gerações de 40 anos cada uma", explica o
professor. O número 40 é "um número convencional na Bíblia", usado com
freqüência para designar um longo período. Ao se ler a cronologia do
Primeiro Livro de Reis sob essa perspectiva - isto é, como uma exposição
teológica e não como história pura -, pode-se colocar o Êxodo no século 13
a.C., na época de Ramsés II, em que há forte sustentação, circunstancial
nos registros arqueológicos.
JESUS
Nas
últimas quatro décadas, descobertas espetaculares confirmam o pano de
fundo histórico dos Evangelhos. Em 1968, por exemplo, o esqueleto de homem
crucificado foi encontrado em uma caverna funerária na parte norte de
Jerusalém. Foi um achado significativo: embora se saiba que os romanos
crucificam milhares de supostos traidores, rebeldes e ladrões, os restos
de uma vítima de crucificação jamais tinham sido encontrados.
Os
ossos, preservados num ossuário de pedra, pareciam pertencer a um homem
entre 25 e 30 anos. Havia indícios de que seus pulsos tinham sido
transpassados com pregos. Os joelhos haviam sido dobrados e virados para o
lado, e um prego de ferro (ainda alojado no osso de um calcanhar) fora
enfiado nos dois pós. As duas tíbias pareciam ter sido quebradas, quem
sabe se confirmar o relato do Evangelho de João (19:32-33): "Foram pois os
soldados, e, na verdade, quebraram as pernas ao primeiro, e ao outro que
com ele fora crucificado."
Havia muito que se dizia que os
carrascos romanos costumavam jogar os cadáveres dos crucificados em valas
comuns ou abandona-los na cruz para serem devorados por animais
carniceiros. Mas a descoberta dos restos de um crucificado contemporâneo
de Jesus em uma sepultura evidenciou que os romanos às vezes permitiam um
enterro familiar, como relato do sepultamento de Jesus.
Em 1990,
durante a construção de um parque a pouco mais de três quilômetros ao sul
do Monte do Templo, os operários descobriram uma câmara funerária secreta,
datada do século 1º, contendo 12 ossuários de calcário. Em um deles, que
guardava os ossos de um sexagenário, havia a inscrição "Yehosef bar
Qayafa", ou seja, "José, filho de Caifás". Os especialistas acreditam que
se trata dos restos de Caifás, o supremo sacerdote de Jerusalém que,
segundo os Evangelhos, esteve envolvido na prisão de Jesus, interrogou-o e
o entregou a Pôncio Pilatos para ser executado.
Algumas décadas
antes, durante as escavações nas ruínas de Cesaréia Marítima, a antiga
sede do governo romano na Judéia, foi encontrada uma laje de pedra com a
inscrição bastante danificada. De acordo com os peritos, a inscrição
completa teria sido: "Pôncio Pilatos, governador da Judéia, dedicou ao
povo de Cesaréia um templo em homenagem a Tibério."
A descoberta é
especialmente significativa por ser a única inscrição com o nome de
Pilatos já encontrada e por estabelecer que o personagem descrito nos
Evangelhos como governante romano da Judéia tinha de fato a autoridade a
ele atribuída pelos evangelistas.
Os arqueólogos estão
convencidos de que existem muito mais provas a respeito, enterradas nas
areias do Oriente Médio, à espera de que alguém as encontre.
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